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DATA: 01/01/2026 (QUINTA-FEIRA)
COTAÇÃO: ★★★½ — Bom
Glass Onion: A Knives Out Mystery pode ser lido como uma sátira sofisticada sobre como o poder funciona menos pela inteligência real e mais pela crença coletiva. Em termos simples, o filme mostra pessoas girando em torno de um homem rico não porque ele seja brilhante, mas porque todos precisam que ele pareça brilhante. Cada personagem deposita nesse bilionário suas ambições, medos e dependências. Eles não seguem um indivíduo, mas uma ideia — a ideia de sucesso, inovação e autoridade. A “cebola de vidro” simboliza isso com clareza: algo que parece complexo, profundo e transparente, mas que, ao ser descascado, revela apenas camadas repetidas e frágeis, sustentadas mais pela encenação do que por conteúdo real.
No plano simbólico e esotérico, a ilha funciona como um falso espaço de revelação, quase um templo moderno onde se promete acesso à “verdade”. No entanto, trata-se de uma iniciação invertida: em vez de iluminação, há cegueira voluntária. Os símbolos culturais, obras de arte e referências históricas espalhadas pelo cenário operam como talismãs vazios — não transmitem sabedoria, apenas status. A leitura conspiratória do roteiro não aponta para sociedades secretas clássicas, mas para algo mais perturbador: a conspiração do consenso social. Todos sabem, em algum nível, que o “gênio” é um impostor, mas o pacto silencioso mantém a farsa viva, porque ela beneficia a todos. O filme sugere que a maior conspiração contemporânea não é escondida nas sombras, mas exibida à luz do dia, normalizada pela estética, pelo marketing e pela repetição.
Ao misturar psicanálise e gnose cinematográfica, o desfecho revela que o verdadeiro mistério não é o crime, mas o mecanismo psicológico que permite que ele aconteça. O magnata representa uma figura infantilizada de poder: impulsiva, destrutiva e vazia, mas protegida pela aura simbólica que os outros projetam nele. Já a investigação funciona como um processo quase terapêutico e gnóstico — não busca apenas fatos, mas desmascarar ilusões. Quando os ídolos são destruídos, não surge conforto, e sim desconforto: a verdade liberta, mas também expõe a cumplicidade coletiva. Assim, Glass Onion se consolida como uma crítica acessível e profunda à nossa época, mostrando que o colapso não vem da genialidade maligna, mas da mediocridade amplificada por crença, medo e desejo de pertencimento.
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COTAÇÃO
★★★★★ — Obra-prima
★★★★½ — Excelente
★★★★ — Muito Bom
★★★½ — Bom
★★★ — Agradável
★★½ — Desapontador
★★ — Fraco
★½ — Ruim
★ — Horrível
½ — Não perca seu tempo!
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