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A primeira temporada de Chainsaw Man, composta por 12 episódios, oferece uma das experiências audiovisuais mais densas do anime contemporâneo, justamente por articular violência extrema, niilismo cotidiano e símbolos ocultistas dentro de uma dramaturgia rigorosamente moderna. Longe de ser apenas um espetáculo de brutalidade estilizada, a obra funciona como uma meditação sombria sobre desejo, poder, trabalho e vazio existencial — temas que atravessam tanto o mangá quanto sua adaptação animada.
1. O mangá como matriz filosófica e simbólica
Criado por Tatsuki Fujimoto, o mangá Chainsaw Man nasce de uma lógica profundamente anti-heroica. Denji não é movido por ideais transcendentes, justiça moral ou redenção espiritual. Seu motor existencial é brutalmente básico: comer bem, dormir em uma cama decente e tocar um corpo desejado. Esse ponto é crucial, pois Fujimoto constrói uma crítica silenciosa à romantização do sofrimento e do sacrifício — tão comuns na tradição shōnen.
Filosoficamente, Denji representa o homem reduzido à sobrevivência, próximo do que pensadores existencialistas chamariam de vida nua: uma existência sem horizonte simbólico elevado, onde o sentido não é buscado, mas improvisado. Não há “chamado do herói”; há apenas a necessidade.
2. Ocultismo e demonologia: pactos, medo e poder
O universo de Chainsaw Man estrutura-se sobre uma lógica claramente ocultista: demônios nascem do medo humano. Essa premissa ecoa tradições mágicas e esotéricas antigas, nas quais entidades espirituais se alimentam de emoções humanas intensas — medo, desejo, culpa e obsessão.
Os contratos demoníacos funcionam como versões modernas do pacto fáustico. Cada acordo exige um preço físico ou existencial: olhos, braços, anos de vida, liberdade. Aqui, o ocultismo não é glamourizado; ele é administrativo, quase burocrático. Isso é fundamental: o mal não surge como algo grandioso, mas como um sistema funcional, integrado ao Estado e ao mercado de trabalho.
Makima, nesse contexto, encarna uma figura arquetípica ambígua — simultaneamente messiânica e tirânica. Sua relação com o controle remete tanto a leituras foucaultianas de poder quanto a símbolos clássicos do ocultismo, onde o domínio absoluto não se dá pela força bruta, mas pela internalização da obediência.
3. A primeira temporada: niilismo, corpo e repetição
Nos 12 episódios iniciais, a adaptação do estúdio MAPPA opta por uma direção quase clínica. A violência é crua, mas raramente glorificada. O corpo humano é apresentado como descartável, substituível, fragmentável — o que dialoga com uma visão materialista radical do ser.
A repetição do cotidiano (missões, mortes, ressuscitações) cria uma sensação de eterno retorno sem transcendência. Denji morre e volta, mas não evolui espiritualmente; ele apenas continua. Essa estrutura dialoga com o niilismo passivo, no qual a ausência de sentido não leva à revolta metafísica, mas à adaptação pragmática.
Power, Aki e os demais personagens funcionam como variações dessa mesma condição existencial:
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Aki representa o sujeito ainda preso à ideia de propósito e vingança — portanto, condenado à frustração.
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Power encarna o instinto puro, sem culpa ou reflexão moral.
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Makima simboliza a promessa falsa de sentido, ordem e direção.
4. Roteiro e adaptação: silêncio, enquadramento e filosofia visual
A adaptação em anime não apenas respeita o mangá, como o interpreta filosoficamente. O uso recorrente de silêncios, enquadramentos vazios, cenas cotidianas banais (refeições, deslocamentos, pausas) cria uma estética de anti-epopeia. O extraordinário surge, mas nunca redime o ordinário.
Cada episódio termina não com catarse, mas com uma leve sensação de desconforto — reforçada pelos encerramentos musicais distintos, que funcionam como comentários emocionais fragmentados da narrativa. Isso reforça a ideia de um mundo sem unidade moral ou metafísica.
5. Conclusão: um horror existencial contemporâneo
A primeira temporada de Chainsaw Man é, em essência, uma obra sobre o esvaziamento do sentido em uma sociedade que transformou até o sobrenatural em engrenagem funcional. O ocultismo não aponta para mistério ou transcendência, mas para contratos, hierarquias e exploração. O horror não vem apenas dos demônios, mas da normalidade com que eles são integrados à vida cotidiana.
Nesse sentido, Chainsaw Man dialoga mais com a filosofia existencial, o niilismo moderno e a crítica biopolítica do que com a tradição heroica do anime. Sua força está justamente em não oferecer respostas — apenas mostrar, com brutal honestidade, o que resta quando os grandes ideais já morreram e o ser humano continua existindo mesmo assim.
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