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O TETRAMORFO: OS QUATRO SERES VIVENTES E OS QUATRO EVANGELISTAS
Da visão de Ezequiel ao Apocalipse — e sua presença simbólica na carta XXI, O Mundo, do Tarot Rider-Waite-Smith.
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Nos quatro cantos da carta O Mundo, do Tarot Rider-Waite-Smith, aparecem quatro figuras: um homem alado ou anjo, um leão, um touro e uma águia. Esses seres remetem a uma tradição visual muito anterior ao Tarot: o Tetramorfo, conjunto de quatro figuras associadas às visões bíblicas de Ezequiel e do Apocalipse e, posteriormente, aos quatro evangelistas.
A palavra tetramorfo vem de raízes gregas que significam “quatro formas”. Na arte cristã, designa a representação conjunta dos símbolos dos evangelistas: o homem ou anjo de Mateus, o leão de Marcos, o touro ou boi de Lucas e a águia de João.
1. A origem bíblica: a visão do profeta Ezequiel

No Antigo Testamento, o profeta Ezequiel descreve uma visão extraordinária. Em Ezequiel 1:5–10, aparecem quatro seres viventes, cada um com quatro faces: uma face humana, uma de leão, uma de boi e uma de águia.
“E a semelhança dos seus rostos era como o rosto de homem; e à mão direita todos os quatro tinham rosto de leão [...] e à mão esquerda todos os quatro tinham rosto de boi; e também tinham rosto de águia.”— Ezequiel 1:10 (redação tradicional de Almeida; a formulação pode variar conforme a edição bíblica).
Na visão de Ezequiel, os seres estão ligados à manifestação da glória divina. O capítulo descreve também rodas extraordinárias e o movimento dos seres, compondo uma visão de majestade, poder e presença celestial. O texto bíblico não os identifica como evangelistas: essa associação pertence à interpretação cristã posterior.
2. A visão do Apocalipse

Uma imagem semelhante aparece no Apocalipse 4:6–8. O autor descreve quatro seres viventes ao redor do trono: o primeiro semelhante a um leão; o segundo, a um novilho; o terceiro com rosto semelhante ao de um homem; e o quarto semelhante a uma águia em voo.
“E o primeiro animal era semelhante a um leão, e o segundo animal semelhante a um bezerro, e tinha o terceiro animal o rosto como de homem, e o quarto animal era semelhante a uma águia voando.”— Apocalipse 4:7 (Almeida, redação tradicional).
Em Apocalipse 4:8, esses seres proclamam continuamente a santidade de Deus. A visão apresenta uma cena de adoração celestial e soberania divina. A semelhança com Ezequiel favoreceu a interpretação conjunta das duas passagens pela tradição cristã.
3. Os quatro seres e os quatro evangelistas
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A tradição cristã ocidental consolidou a seguinte correspondência. É importante observar que os Evangelhos não declaram diretamente essas equivalências; elas são interpretações teológicas e iconográficas desenvolvidas ao longo dos primeiros séculos do cristianismo.
O HOMEM OU ANJO — MATEUS
Passagem principal: Mateus 1:1–17. O Evangelho de Mateus começa com a genealogia de Jesus: “Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mateus 1:1). A figura humana remete à humanidade de Cristo e à sua genealogia. Na arte cristã, o símbolo costuma ser representado como um homem alado ou anjo. Ideias associadas: humanidade, encarnação, nascimento e genealogia de Jesus.
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O LEÃO — MARCOS
Passagem principal: Marcos 1:1–3. Marcos abre seu Evangelho com a referência à voz que clama no deserto e anuncia a preparação do caminho do Senhor. A tradição relacionou essa voz ao rugido do leão. O animal também evoca majestade, força e realeza. Ideias associadas: autoridade, força, realeza e anúncio da missão de Cristo.
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O TOURO OU BOI — LUCAS
Passagem principal: Lucas 1:5–23. Lucas começa narrando o serviço sacerdotal de Zacarias no Templo. O boi era um animal associado aos sacrifícios do culto antigo; por isso, tornou-se símbolo do sacrifício, do sacerdócio e da entrega. A tradição cristã relaciona esse símbolo à dimensão sacrificial da missão de Jesus. Ideias associadas: sacrifício, serviço, sacerdócio e redenção.
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A ÁGUIA — JOÃO
Passagem principal: João 1:1–14. O Evangelho de João começa com a afirmação: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1:1). A águia, que voa em grandes alturas, tornou-se imagem da elevação contemplativa e da visão espiritual. O início de João, centrado no Logos — o Verbo —, foi associado a essa capacidade de contemplar o divino. Ideias associadas: transcendência, contemplação, sabedoria e natureza divina de Cristo.
Nota: as explicações acima resumem a interpretação tradicional. Elas não significam que cada evangelista tenha escolhido pessoalmente seu animal como símbolo.
4. Uma divergência histórica: Irineu de Lyon e Jerônimo
A correspondência entre os seres e os evangelistas não foi uniforme desde o começo. No século II, Irineu de Lyon, em Contra as Heresias (Livro III, capítulo 11, seção 8), apresentou uma distribuição diferente da que se tornou mais conhecida no Ocidente: associou o leão a João e a águia a Marcos, mantendo o homem com Mateus e o novilho com Lucas.
Mais tarde, a interpretação atribuída a Jerônimo ajudou a consolidar a ordem que se tornou predominante na arte cristã ocidental: homem/Mateus, leão/Marcos, boi/Lucas e águia/João. A existência dessas diferenças mostra que estamos diante de uma tradição interpretativa construída historicamente, e não de uma lista explícita fornecida pelos textos bíblicos.
5. Os quatro seres, os signos fixos e os elementos
Na leitura esotérica e astrológica associada à carta O Mundo, os quatro seres também são relacionados aos quatro signos fixos do zodíaco e aos quatro elementos. Essa é uma camada simbólica distinta da interpretação cristã dos evangelistas.
| Figura | Evangelista | Signo fixo | Elemento |
|---|---|---|---|
| Homem / Anjo | Mateus | Aquário | Ar |
| Leão | Marcos | Leão | Fogo |
| Touro / Boi | Lucas | Touro | Terra |
| Águia | João | Escorpião | Água |
A águia merece atenção especial: em certas correntes esotéricas, ela é vista como uma expressão elevada ou transformada de Escorpião. Essa correspondência não é uma doutrina bíblica nem uma identificação feita pelos evangelistas; pertence a sistemas simbólicos posteriores.
6. O significado dos quatro seres na carta O Mundo
Na carta XXI, os quatro seres ocupam os cantos da composição, enquanto uma figura central aparece dentro de uma coroa oval. A imagem pode ser lida como uma representação de totalidade: diferentes forças, direções e dimensões reunidas em uma única estrutura.
Pela lente bíblica, os seres evocam as visões de Ezequiel e do Apocalipse. Pela tradição cristã, remetem aos quatro evangelistas. Pela leitura esotérica, podem representar os quatro elementos e os signos fixos. Essas camadas se aproximam visualmente, mas não devem ser confundidas como se tivessem surgido da mesma fonte histórica.
Assim, O Mundo pode ser interpretado como conclusão, integração e plenitude: a realização de um ciclo e a reunião de forças diversas em uma totalidade. Essa é uma leitura simbólica da carta, não uma afirmação de que o Tarot tenha origem direta nos textos bíblicos.
7. Referências para aprofundamento
- Bíblia: Ezequiel 1:4–28; Apocalipse 4:6–8.
- Evangelho de Mateus: 1:1–17.
- Evangelho de Marcos: 1:1–3.
- Evangelho de Lucas: 1:5–23.
- Evangelho de João: 1:1–14.
- Irineu de Lyon: Contra as Heresias, Livro III, capítulo 11, seção 8.
- Iconografia cristã: Tetramorfo e símbolos dos quatro evangelistas.

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